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REVIRANDO O BAÚ

Amigos, revirando o baú de textos que escrevi encontrei um de 2004 que fala sobre os malefícios de determinados programas de televisão. Incrível, após quatro anos o texto ainda é atual. Por favor, leiam e digam se estou errado. Agradeço sua opinião.

Destruição de valores: crítica à programas de televisão

 

Adonis Lisboa

Professor de Educação Física e Judô

 

Muitos poderão me achar amargo ou pessimista nas observações que ora faço neste texto. Tenho que admitir, eles têm razão, contudo não posso calar minha indignação, nem omitir-me diante das atrocidades feitas com a intelectualidade do nosso povo. Não posso fingir que nada está acontecendo, enquanto vejo a idiotização das pessoas se alastrando dia a dia em meu entorno.

No ano em que o Brasil lembra o 40o aniversário do início da ditadura de 1964 e comemora 20 anos de seu término, surpreende-me que a televisão brasileira apresente determinados programas.

Talvez porque considere a liberdade em todos os sentidos, um direito intocável e extremamente valioso para qualquer ser vivo, incomodam-me tanto programas do tipo Big Brother Brasil e Acorrentados da Rede Globo. No primeiro, pessoas se autoseqüestram e se expõem em toda sua intimidade em troca de um prêmio de R$ 500.000,00. Um “jogo” onde vale qualquer tipo de desonestidade para conseguir “eliminar” os demais concorrentes. A autenticidade aqui é o que menos interessa!

Os seqüestros aumentaram assustadoramente no país, em especial os seqüestros relâmpagos, no entanto, um grupo de pessoas se permite seqüestrar por um determinado tempo, simplesmente porque há um prêmio em dinheiro, ou seja, a liberdade perde seu valor quando há um ganho econômico.

Talvez, qualquer uma destas pessoas que participaram do Big Brother Brasil, se incomode se o vizinho lhe observe em suas atividades cotidianas, porém se expõem despudoradamente para milhões de pessoas, sem nenhum problema, apenas por estar na televisão. Que contradição!

O segundo programa sobre o qual lanço meus comentários é o que tomei conhecimento recentemente e se chama Acorrentados, transmitido aos sábados à tarde. Neste programa, um rapaz e seis moças são acorrentados uns aos outros, tendo de ficar assim durante as 24 horas do dia. Ele de tempos em tempos eliminará uma das suas pretendentes até ficar com apenas uma.

Detalhe importante, no início do programa ele recebeu uma maleta com R$50.000,00 para pagar as despesas do grupo por todos os lugares onde andarem e pagar para cada eliminada a quantia que achar conveniente. Ou seja, ele dirá quanto cada uma vale. Novamente, a liberdade é menosprezada e transformada em algo banal, simplesmente porque há um prêmio em dinheiro a receber.

Alguns poderão dizer que o controle disto tudo está nas mãos de cada um de nós, basta trocar de canal ou desligar a televisão. Porém, a situação não é tão simples assim, se fosse não teríamos a final do Big Brother com aproximadamente 20.000.000 de pessoas ligando para votar.

As pessoas são culpadas, mas também são vítimas de sua falta de consciência. Não somos instigados a pensar pelos meios de comunicação. Quase tudo vem pronto e com muita rapidez. Há quem diga que um povo que não pensa é melhor de governar!

Estes dois programas que aqui comentei são apenas uma pequeníssima parcela do que a televisão tem nos oferecido de nefasto. A violência dos desenhos animados também necessita ser pensada, porém é conversa para outro momento. É claro que existem programas interessantes e muito saudáveis na televisão, são difíceis de achar, mas vale a pena garimpá-los.

Os valores (negativos) estabelecidos por Big Brother e Acorrentados da vida, refletem-se em muitas ações das pessoas que encontramos em nosso cotidiano. Por vezes, parece errado ser honesto, pois há uma cultura da desonestidade se alastrando.

Na escola não é diferente, estes pseudo-valores também podem ser observados tanto nos alunos, quanto nos professores e demais  pessoas que convivem neste meio. Daí, que mesmo sem assistir a tais programas, fica-se informado sobre os mesmos, pois conversas rolam a respeito destes.

Como disse no início, muitos me criticarão por ser tão negativo. Mas não posso ficar calado diante da destruição dos valores essenciais da vida, como a liberdade, a solidariedade e o amor pelo outro. É preciso que façamos algo, principalmente, quem tem por ofício a Educação.

Penso que a solução não é proibir a audiência, pois seria contra a democracia ou a liberdade que aqui enaltecemos, mas desenvolver a consciência, que permitiria a cada um escolher com clareza e responsabilidade. Entretanto, para escolher é preciso ter opções, algo difícil em nossa televisão hoje.  Refiro-me à televisão, por ser quase exclusivamente o lazer da maioria do povo brasileiro, que devido a sua condição sócio-econômica não tem acesso a outros tipos de lazer ou não é educado para descobri-los. Logicamente não me refiro à televisão por assinatura, pois esta não está acessível à maioria da população em razão de seu alto custo.

Acredito incondicionalmente na vida e na potencialidade das pessoas, por isso sou educador, pois isso luto pela conscientização das mesmas e pelo enaltecimento da liberdade em todos os sentidos.

Como reflexão final, quero ressaltar a importância da leitura. Por meio dela, nos libertamos de muitos grilhões ou pelo menos tomamos consciência dos mesmos. Pela leitura aprendemos até que os livros não são tudo, mas podem ser o início de nossa caminhada rumo ao fim da ignorância, ou seja, jornada que jamais termina, mas certamente, vale a pena caminhar.

 

Abril/ 2004

 

 



Escrito por Adonis Lisboa às 16h14
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